“…. Há um perfume aqui. Não diga nada. Vou adivinhar….”
Assim começa uma das cenas mais memoráveis do cinema. O tenente-coronel Frank Slade, um deficiente visual, interpretado por Al Pacino em Perfume de Mulher, aproxima-se da mesa onde uma jovem está sentada e identifica seu perfume apenas pelo aroma.
Lançado em 1992, o filme rendeu a Al Pacino o Oscar de Melhor Ator e eternizou a cena em que ele dança tango ao som de Por Una Cabeza, de Carlos Gardel. Poucas sequências conseguiram retratar com tanta elegância o poder que um aroma pode exercer sobre a memória e sobre as emoções.
Mas talvez nenhuma obra tenha explorado a força do olfato de forma tão profunda quanto Perfume: A História de um Assassino. Publicado em 1985 pelo escritor alemão Patrick Süskind e levado ao cinema em 2006, o romance apresenta Jean-Baptiste Grenouille, um homem dotado de uma capacidade olfativa extraordinária que utiliza seu talento para criar fragrâncias capazes de fascinar multidões. É uma história perturbadora, mas que demonstra como um simples aroma pode despertar desejos, lembranças e sentimentos que nem sabíamos possuir.

No vinho, acontece algo semelhante.
Segurar a taça, fazê-la girar suavemente e perceber os aromas que começam a surgir talvez seja um dos momentos mais fascinantes da degustação. Muitos apreciadores chegam a dizer que bebem vinho principalmente pelos aromas. E há uma boa razão para isso.

De forma geral, os aromas do vinho costumam ser divididos em três grupos: aromas primários, secundários e terciários.
Os aromas primários são aqueles provenientes da própria uva e da fermentação alcoólica. É aqui que encontramos as notas de frutas como morango, cereja, ameixa, mirtilo, maçã, pêssego, abacaxi, limão e laranja. Também fazem parte desse grupo os aromas florais, como rosa e jasmim, além de notas herbáceas, especiadas e vegetais.
Os aromas secundários surgem durante o processo de elaboração do vinho. O contato com as leveduras pode gerar aromas que lembram pão fresco, brioche, biscoito, torradas e iogurte. A fermentação malolática, responsável por suavizar a acidez, frequentemente produz notas amanteigadas. Já o envelhecimento em barricas de carvalho pode acrescentar aromas de baunilha, chocolate, coco, café e especiarias doces.
Os aromas terciários aparecem com o tempo e com a evolução do vinho em garrafa ou em contato controlado com o oxigênio. É nesse grupo que encontramos notas de frutas secas, mel, caramelo, nozes, amêndoas, couro, tabaco, especiarias, cogumelos e delicados aromas defumados que tanto encantam os apreciadores de vinhos maduros.

Alguns aromas são tão característicos que acabam se tornando verdadeiras assinaturas de determinadas variedades. O aroma de petróleo é frequentemente associado à Riesling. Já a Gewürztraminer costuma exibir notas marcantes de lichia, uma fruta tropical bastante aromática.

Por isso, os aromas falam muito mais sobre a personalidade de um vinho do que sobre sua qualidade. É claro que eles podem revelar defeitos quando algo não está correto. Mas, na ausência de falhas, não existem aromas melhores ou piores. Existem apenas diferentes expressões de diferentes vinhos.
Também vale lembrar que identificar aromas é uma habilidade construída ao longo do tempo. O cérebro funciona como uma grande biblioteca olfativa, armazenando referências que adquirimos ao longo da vida. Quanto mais experiências acumulamos, maior se torna nossa capacidade de reconhecer e descrever o que encontramos na taça.
Curiosamente, diversos estudos sugerem que as mulheres possuem, em média, uma percepção olfativa mais apurada que os homens. Talvez isso explique por que, em muitas degustações, elas costumam identificar aromas com maior facilidade.
Em Perfume de Mulher, antes de entrar na pista de dança, Donna diz:
“…. Tenho medo de errar. ….”
Ao que Frank responde:
“…. Tango não é como a vida. Não existe certo ou errado. Por isso ele é tão bonito. Se errar, continue dançando. ….”

Talvez o vinho seja um pouco assim.
Não importa se você encontrou cereja, ameixa, couro, tabaco ou simplesmente achou o aroma agradável. O mais importante não é acertar. É sentir. É experimentar. É aproveitar a viagem.
O vinho é, antes de tudo, uma fonte de prazer.
Assim como o tango continua mesmo quando erramos um passo, a descoberta dos aromas também deve continuar sem medo de errar.
Just Tango On… ………….. E, por que não?
Just Wine On
Ao som de Carlos Gardel, convido você mais uma vez a entrar nesse fascinante universo de aromas, memórias e emoções. Um mundo onde não existem respostas certas ou erradas.
Existe apenas o prazer de sentir.

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