Quando Jesus celebrou a Última Ceia com seus discípulos, o vinho foi servido em um cálice que a tradição cristã passou a chamar de Santo Graal. Durante quase dois mil anos, histórias, lendas e controvérsias cercaram esse objeto. Livros como O Código Da Vinci, de Dan Brown, e filmes como Indiana Jones e a Última Cruzada alimentaram ainda mais a imaginação popular.
Se o Santo Graal realmente existe ou não, talvez jamais saibamos. Mas poucos objetos despertaram tanta curiosidade ao longo da história. Ao lado do Santo Sudário, ele permanece como uma das mais famosas relíquias associadas à figura de Jesus Cristo.
Felizmente, para apreciar um bom vinho não precisamos encontrar o Santo Graal. Basta escolher uma boa taça.
Quando falamos em taças de vinho, os materiais mais utilizados são o vidro e o cristal. O vidro costuma ser mais resistente e mais barato, porém geralmente apresenta paredes mais espessas e menor refinamento. O cristal, por sua vez, é mais leve, fino e elegante, permitindo uma percepção mais agradável dos aromas. Em compensação, costuma ser mais caro e mais delicado.
Nos últimos anos, muitos fabricantes passaram a utilizar tecnologias que incorporam minerais e tratamentos especiais, incluindo compostos à base de titânio, aumentando a resistência das taças sem perder a delicadeza do cristal. Assim, tornou-se possível encontrar modelos de excelente qualidade por preços mais acessíveis do que no passado.
Mas a escolha da taça não termina no material.

Durante décadas, produtores, sommeliers e fabricantes observaram que diferentes formatos pareciam favorecer diferentes estilos de vinho. Para vinhos da Borgonha, conhecidos pela delicadeza aromática e pela acidez vibrante, costuma-se utilizar taças de bojo mais largo e boca ligeiramente aberta. Já os grandes tintos de Bordeaux normalmente são servidos em taças mais altas e amplas, favorecendo maior contato do vinho com o oxigênio.
No caso dos espumantes, durante muito tempo a taça flute dominou o mercado. Seu formato estreito permite observar melhor a subida contínua das bolhas, fenômeno conhecido pelos franceses como perlage. Atualmente, porém, muitos apreciadores preferem taças em formato de tulipa, que preservam as bolhas e ao mesmo tempo permitem uma melhor percepção dos aromas.
Ao falar de taças para espumantes, é impossível não mencionar a famosa taça coupe, frequentemente associada à rainha francesa Maria Antonieta. Conta a lenda que seu formato teria sido inspirado em um molde de um dos seios da rainha. Há quem atribua a mesma origem a Helena de Troia, e existem diversas outras versões da história.

Provavelmente estamos diante de mais um excelente exemplo de marketing atravessando os séculos. Seja qual for sua verdadeira origem, a coupe possui um formato bastante diferente das taças atualmente mais utilizadas para espumantes. Seu bojo amplo permite que os aromas se espalhem rapidamente e cria uma experiência visual muito distinta da oferecida pelas modernas taças flute ou tulipa.
Talvez seja justamente por isso que ela continua despertando fascínio. Presente em inúmeros filmes, fotografias e festas que retratam a elegância das décadas passadas, a coupe tornou-se um símbolo de glamour e sofisticação. Experimentar um Champagne ou outro espumante nesse tipo de taça é quase uma viagem no tempo.

Se ela oferece uma experiência melhor ou pior que as taças modernas, deixo que cada leitor descubra por si mesmo. Afinal, no mundo do vinho, a curiosidade costuma ser uma excelente companheira.
Se todas essas diferenças entre formatos possuem fundamento científico ou são apenas marketing, a resposta provavelmente está em algum lugar entre os dois extremos.
A tradicional fabricante austríaca Riedel afirma que, ao longo de décadas, inúmeros especialistas degustaram diferentes vinhos em diversos formatos de taças, buscando identificar quais proporcionavam a melhor experiência sensorial. Mais do que uma fórmula matemática, trata-se de um enorme acúmulo de observações práticas e conhecimento adquirido ao longo do tempo.
Por outro lado, também é verdade que alguns exageros foram cometidos. Hoje muitos profissionais utilizam um número menor de modelos de taças, acreditando que a qualidade da bebida é mais importante do que a busca por um formato específico para cada uva ou região.
Existe, entretanto, um cuidado simples que faz diferença para qualquer vinho: a maneira de segurar a taça.
Uma das cenas que mais incomodam os apreciadores de vinho em filmes e novelas é ver alguém segurando a taça pelo bojo. Como o vinho é muito sensível à temperatura, o ideal é segurá-la pela haste ou pela base, evitando transferir o calor das mãos diretamente para a bebida.

Outro detalhe frequentemente ignorado é a limpeza.
Resíduos de detergente podem interferir nos aromas do vinho e até prejudicar a formação das bolhas nos espumantes. Uma taça mal enxaguada não afeta apenas a experiência sensorial; pode comprometer completamente a percepção da bebida.
Por essa razão, em degustações profissionais costuma-se utilizar uma taça padronizada conhecida como ISO. Seu objetivo é reduzir a influência do formato da taça e permitir comparações mais justas entre diferentes vinhos.

Assim como os músicos procuram bons instrumentos para apreciar a música em sua plenitude, e os atletas buscam equipamentos adequados para a prática de seus esportes, quem aprecia vinho também encontra prazer em escolher uma boa taça.
Talvez ela não possua os poderes mágicos atribuídos ao Santo Graal. Mas certamente pode tornar a viagem pelo mundo dos aromas e sabores muito mais agradável.

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