Qual é o melhor vinho ?

Já passava das sete da noite quando chegamos ao destino. Havíamos acordado às cinco da manhã para enfrentar um dos trechos mais difíceis do Caminho da Fé, entre Paraisópolis e Campista. Foram mais de 36 quilômetros caminhando, incluindo uma subida contínua de quase três horas, vencendo mais de 800 metros de desnível.

Como se não bastasse o esforço, no meio da subida fomos surpreendidos por uma chuva forte. Quando chegamos ao pouso, estávamos completamente encharcados, da cabeça aos pés. O cansaço estampado no rosto de cada um dos cinco integrantes do grupo era impossível de esconder.

Enquanto aguardávamos o jantar, avistei algumas garrafas de vinho em um canto da sala. Sem qualquer expectativa, abrimos uma delas e servimos uma taça para cada um.

Foi então que aconteceu algo inesperado.

— Mas que vinho é esse?

Todos nós, sem exceção, elogiamos o vinho. Não foi uma impressão individual. Foi unânime.

O rótulo? Santa Helena Reservado, um vinho chileno produzido para o segmento mais popular do mercado brasileiro, custando algo em torno de quatro dólares.

Não tenho dúvidas de que ele está entre os vinhos mais marcantes que já tomei.

Curiosamente, depois daquele dia nunca mais voltei a beber esse vinho. E, para ser sincero, provavelmente não compraria uma garrafa hoje. Existem inúmeros vinhos tecnicamente superiores, mais complexos, mais elegantes e mais interessantes.

Mas então por que ele permanece tão vivo na minha memória?

Talvez porque a pergunta “Qual é o melhor vinho?” seja muito mais complicada do que parece.

Um vinho caro é necessariamente melhor? Um vinho famoso é melhor? Um vinho com altas pontuações é melhor? Um vinho barato é ruim?

A resposta depende de quem responde.

Do ponto de vista técnico, costumamos valorizar vinhos que apresentam equilíbrio, tipicidade, boa expressão aromática, estrutura adequada e harmonia entre seus componentes. Porém, mesmo para especialistas, avaliar um vinho de forma objetiva exige estudo, experiência e muito treino.

Para a maioria das pessoas, entretanto, a busca deveria ser mais simples: descobrir aquilo que lhes dá prazer.

Quem aprecia taninos mais firmes talvez encontre satisfação em um Cabernet Sauvignon ou Tannat. Quem prefere vinhos mais suaves pode se encantar com Grenache, Syrah ou Tempranillo. Alguns gostam da acidez vibrante de um Sauvignon Blanc de Sancerre. Outros preferem a textura cremosa de um Chardonnay amadurecido em barricas.

Todas essas escolhas são legítimas.

Mas existe algo que muitas vezes esquecemos.

Vinho não é apenas aroma, acidez, corpo ou taninos.

Vinho também é contexto.

É memória.

É companhia.

Por que aquele simples Santa Helena Reservado nos pareceu tão extraordinário naquela noite? Porque ele chegou exatamente quando precisávamos dele. Depois de horas de esforço, chuva, cansaço e frio, aquela taça foi compartilhada entre amigos que haviam vivido a mesma jornada.

Certa vez perguntei a um montanhista qual era a montanha mais difícil que ele já havia escalado.

Ele respondeu: ” … A que estou subindo agora …”

Acho que o mesmo vale para o vinho.

Hoje, se alguém me perguntar qual é o melhor vinho, eu respondo sem hesitar :

Não é o mais caro. Não é o mais famoso. Muito menos aquele que recebeu a maior pontuação.

É aquele que você pode abrir hoje e compartilhar com as pessoas que estão ao seu lado.

Porque, no fim das contas, vinho é relacionamento. O vinho é gente.

E são as pessoas, muito mais do que a garrafa, que transformam um vinho comum em uma experiência inesquecível.

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