Sem Pressa

Diferentemente dos destilados, como o whisky, o vinho muda quando entra em contato com o oxigênio. Talvez por isso eu goste de dizer que o vinho é uma bebida viva.

Há algo fascinante em abrir uma garrafa que passou anos — às vezes décadas — confinada dentro de um vidro e observar sua transformação ao longo dos minutos. Dez, vinte, trinta minutos depois, o vinho já não é exatamente o mesmo. Aromas surgem, sabores ganham definição, texturas se tornam mais harmoniosas. Acompanhar essa evolução é um dos grandes prazeres de quem aprecia vinho.

Os autores de língua inglesa costumam usar expressões como aerating, breathing ou opening up para descrever esse processo. A palavra mais comum, porém, é decanting, e o recipiente utilizado recebe o nome de decanter.

Segundo o dicionário Cambridge, decantar significa transferir um líquido de um recipiente para outro. Na química, o termo refere-se ao processo de separar um líquido de partículas sólidas depositadas no fundo. No mundo do vinho, ambos os significados fazem sentido.

Muitas vezes a decantação é utilizada para separar sedimentos presentes em vinhos mais antigos ou em exemplares não filtrados. No entanto, para a maioria dos apreciadores, o principal objetivo da decantação é outro: aumentar o contato do vinho com o oxigênio para que seus aromas e sabores possam se expressar plenamente.

O decanter acelera esse processo ao ampliar a superfície de contato entre o vinho e o ar. Mas o ponto principal não é o recipiente em si — é o contato com o oxigênio. Por isso, o mesmo fenômeno acontece dentro da própria taça, ainda que de forma mais lenta.

Surge então a pergunta: quais vinhos devem ser decantados e por quanto tempo?

Lembro-me de uma resposta dada pelo enólogo português Luís Pato. Quando questionado sobre o tema, respondeu simplesmente: “Todos os vinhos devem ser decantados.”

Talvez não devamos interpretar essa afirmação de forma literal, mas a mensagem é interessante. O vinho raramente mostra o seu melhor imediatamente após a abertura da garrafa. Em muitos casos, ele precisa de alguns minutos — ou algumas horas — para respirar e revelar toda a sua personalidade.

Não existe uma regra universal. Vinhos do Novo Mundo, como os da Austrália, Chile ou Estados Unidos, costumam beneficiar-se de 20 a 40 minutos de aeração. Grandes Bordeaux podem pedir cerca de uma hora. Já alguns Barolos jovens parecem despertar apenas após duas ou três horas de contato com o ar.

Por outro lado, a maioria dos espumantes, muitos vinhos brancos delicados e alguns tintos muito antigos, com trinta ou quarenta anos de idade, frequentemente dispensam a decantação prolongada. Em certos casos, ela pode até prejudicar o equilíbrio já alcançado pelo tempo.

Quando estamos entre amigos, uma garrafa pode desaparecer rapidamente. Muitas vezes não há tempo para observar a evolução do vinho na taça. Nessas ocasiões, vale a pena abrir e decantar os vinhos com antecedência.

A vida moderna também encontrou suas soluções. Hoje existem diversos aeradores que aceleram o contato com o oxigênio e reduzem o tempo de espera.

Mas talvez a questão mais importante não seja técnica.

Vivemos numa sociedade que nos incentiva constantemente à pressa. Tudo precisa ser rápido, imediato e eficiente. No entanto, a experiência nos mostra que muitas vezes é possível desacelerar, respirar fundo e continuar o caminho sem prejuízo algum.

Com o vinho acontece algo parecido.

Abrir uma garrafa, servir uma taça e acompanhar suas transformações ao longo do tempo faz parte da experiência. Não se trata apenas de beber vinho, mas de conviver com ele por alguns momentos.

Afinal, vinho nunca foi feito para o “vira, vira”.

Foi feito para ser apreciado sem pressa.

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