Mudar nem sempre é fácil.
Abandonar ideias que carregamos por anos, aceitar novas tecnologias e adaptar-se a um mundo em constante transformação exige esforço. Em praticamente todos os setores da sociedade, inovação e tradição convivem lado a lado, nem sempre de forma pacífica. No universo do vinho não é diferente.
Durante muito tempo, muitos consumidores associaram a rolha de cortiça à qualidade e a tampa de rosca, conhecida como screw cap, a vinhos simples ou de menor prestígio. Mas será que essa percepção faz sentido?
A rolha de cortiça acompanha a história do vinho há mais de três séculos. Produzida a partir da casca do sobreiro (Quercus suber), árvore típica da região mediterrânea, ela possui características únicas. Além de vedar a garrafa, permite uma troca extremamente lenta de oxigênio, favorecendo a evolução de muitos vinhos ao longo do tempo.

Portugal, especialmente a região do Alentejo, é um dos maiores produtores mundiais de cortiça. As melhores rolhas são resultado de décadas de crescimento da árvore e representam um material nobre, utilizado principalmente em vinhos destinados à guarda.
Mas a cortiça possui um problema conhecido por todos os produtores: a possibilidade de contaminação por TCA (tricloroanisol), responsável pelo famoso defeito conhecido como “gosto de rolha” ou bouchonné. Embora os índices atuais sejam muito menores do que no passado, o problema existe e pode comprometer completamente uma garrafa.
Foi justamente buscando uma solução para essa questão que surgiu uma das maiores mudanças da indústria vinícola moderna.
A história da tampa de rosca no vinho começou muito antes do que a maioria das pessoas imagina. Embora a tecnologia já existisse para outras aplicações, foi a vinícola australiana Yalumba que entrou para a história ao utilizá-la comercialmente pela primeira vez em um vinho.
Em maio de 1976, a Yalumba engarrafou seu Pewsey Vale Rhine Riesling utilizando o fechamento por Screw Cap, tornando-se pioneira nessa tecnologia. A decisão foi considerada ousada. Em uma época em que a cortiça dominava completamente o mercado, muitos consumidores viam a tampa de rosca com desconfiança. Ainda assim, a vinícola acreditava que ela poderia preservar melhor os delicados aromas do Riesling e oferecer maior consistência entre as garrafas.

Primeiro vinho comercialmente engarrafado na Austrália com fechamento Stelvin (screw cap). A fotografia foi gentilmente enviada pela própria Yalumba e registra uma das garrafas que marcaram o início de uma transformação na indústria do vinho.
O tempo mostrou que a aposta estava correta.
Nas décadas seguintes, Austrália e Nova Zelândia lideraram a adoção do screw cap, especialmente para vinhos brancos aromáticos. Posteriormente, produtores dos Estados Unidos, Chile, África do Sul e até mesmo da Europa passaram a utilizar o sistema.
As vantagens são evidentes: eliminação praticamente total do risco de TCA, vedação uniforme, praticidade para o consumidor e custos menores de produção. Por outro lado, a cortiça continua sendo a preferência de muitos produtores para vinhos destinados a longos períodos de envelhecimento, especialmente por razões históricas e culturais.
No entanto, a experiência dos últimos anos mostrou que a qualidade de um vinho não pode ser determinada pelo tipo de fechamento utilizado.
Lembro-me de ter degustado, em setembro de 2022, um Kapuka Pinot Noir 2011, da neozelandesa Wither Hills. Engarrafado com screw cap, apresentava excelente evolução, complexidade e equilíbrio, sem qualquer sinal de limitação causada pelo sistema de fechamento. Uma prova de que grandes vinhos podem envelhecer perfeitamente sob tampa de rosca.

Hoje, o mercado parece ter encontrado um ponto de equilíbrio. A cortiça continua ocupando seu espaço, preservando séculos de tradição. A tampa de rosca segue conquistando consumidores pela eficiência e praticidade. O conflito que antes existia entre os dois sistemas praticamente desapareceu.
Talvez a verdadeira questão nunca tenha sido escolher entre cortiça e alumínio.
O desafio está em abandonar preconceitos.
Um grande vinho continuará sendo um grande vinho, independentemente da forma como sua garrafa é fechada.

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