O vinho que bebemos com os olhos…

Muito antes do café, do açúcar ou do ouro transformarem a economia colonial, foi uma árvore que despertou o interesse dos portugueses pelas terras que mais tarde receberiam o nome de Brasil.

O Pau-Brasil, árvore de madeira extremamente dura e de coloração avermelhada, tornou-se a primeira grande riqueza explorada pelos colonizadores após a chegada dos portugueses em 1500. Da sua madeira era extraído um pigmento vermelho intenso utilizado no tingimento de tecidos e na produção de tintas. Em uma Europa fascinada por cores vibrantes, esse corante alcançou enorme valor comercial e gerou fortunas durante os séculos XVI e XVII.

Curiosamente, ainda hoje o Pau-Brasil mantém seu prestígio. Se antes sua riqueza estava na cor que oferecia aos tecidos europeus, hoje ela está na excepcional dureza de sua madeira, considerada uma das melhores matérias-primas para a fabricação dos arcos utilizados por instrumentistas de corda em todo o mundo.

A cor sempre exerceu fascínio sobre o ser humano. Afinal, enxergamos as cores graças a um fenômeno físico baseado na absorção e reflexão da luz. Na natureza, muitos animais utilizam essa característica como ferramenta de sobrevivência. Camaleões mudam de cor para se adaptar ao ambiente, enquanto polvos conseguem praticamente desaparecer diante de predadores ou presas. Para eles, a cor não é apenas estética; é uma questão de vida ou morte.

Com o vinho acontece algo semelhante.

Basta servir uma taça e incliná-la cerca de 45 graus sobre um fundo branco para que um universo de informações se revele diante dos nossos olhos. Nos vinhos tintos encontramos tonalidades que vão do púrpura (PURPLE) ao rubi (RUBY), passando pelo granada (GARNET) até chegar ao castanho (BROWN). Nos vinhos brancos observamos cores que variam do verde-limão (LEMON-GREEN) ao amarelo-palha (LEMON), dourado (GOLD), âmbar (AMBER) e, em alguns casos, também ao castanho.

Mas quais segredos essas cores escondem?

Primeiro, a cor pode oferecer pistas sobre a variedade da uva utilizada. Vinhos elaborados com Cabernet Sauvignon ou Syrah costumam apresentar tons púrpura profundos quando jovens. Já a Pinot Noir normalmente exibe uma coloração rubi mais clara e translúcida. Entre os brancos, Sauvignon Blanc frequentemente revela reflexos esverdeados, enquanto muitos Chardonnays do Novo Mundo — especialmente do Chile, Austrália e Estados Unidos — apresentam tons mais dourados. Os rosés da Provence, por sua vez, tornaram-se famosos pela delicada cor salmão.

A cor não revela exatamente qual é a uva, mas frequentemente ajuda a identificar quais uvas provavelmente não estão presentes.

Em segundo lugar, a cor também nos fala sobre a idade do vinho.

Nos tintos, a tendência é que a cor se torne mais clara com o passar dos anos. O púrpura intenso da juventude vai lentamente evoluindo para tonalidades rubi e granada. Em 2022, tive a oportunidade de degustar um Château Mouton Rothschild 1967. Produzido majoritariamente com Cabernet Sauvignon, sua cor original certamente era de um púrpura profundo. Após mais de cinquenta anos de evolução, porém, apresentava uma tonalidade muito mais clara, lembrando visualmente alguns vinhos elaborados com Pinot Noir.

Com os vinhos brancos acontece exatamente o contrário. A cor torna-se progressivamente mais intensa. Um vinho inicialmente amarelo-palha pode evoluir para dourado, âmbar e até mesmo castanho. Na mesma degustação do Mouton Rothschild 1967, provei um Porto Branco de 1964 cuja coloração já não permitia distinguir facilmente se estávamos diante de um vinho branco ou tinto, tamanha a intensidade dos tons acastanhados.

Antes de aproximarmos o vinho do nariz ou da boca, vale a pena observá-lo com atenção. Através da cor, ele nos conta de onde veio, sugere sua idade e revela parte de sua história.

O vinho fala conosco antes mesmo do primeiro gole.

Porque o vinho também se bebe com os olhos.

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