Quando chega novembro, poucos vinhos são tão lembrados quanto o Beaujolais Nouveau. Produzido na região de Beaujolais, ao sul da Borgonha, a partir da uva Gamay, ele se tornou um dos maiores fenômenos de marketing da história do vinho.
Sua história moderna começou em 1951, quando os produtores da região passaram a comercializar oficialmente o primeiro vinho da safra poucas semanas após a colheita. Elaborado com uvas colhidas entre agosto e setembro, o Beaujolais Nouveau é lançado todos os anos na terceira quinta-feira de novembro, simultaneamente em diversos países.
Leve, aromático e descontraído, apresenta normalmente aromas de morango, cereja, framboesa e outras frutas vermelhas frescas. Seus taninos são suaves, a acidez é moderada e sua principal virtude é justamente a juventude. Não é um vinho feito para envelhecer, mas para celebrar o início de uma nova safra. Por isso, recomenda-se consumi-lo ainda nos meses seguintes ao lançamento.
O sucesso foi tão grande que, durante as décadas de 1970 e 1980, o lançamento do Beaujolais Nouveau transformou-se em um evento mundial. Restaurantes organizavam festas, lojas faziam contagens regressivas e a imprensa acompanhava a chegada das primeiras garrafas aos grandes mercados consumidores. Em alguns casos, consumidores compravam caixas inteiras para guardar por muitos anos, esquecendo que aquele vinho havia sido criado justamente para ser bebido jovem.
Paradoxalmente, esse enorme sucesso acabou produzindo um efeito colateral. Para muitos consumidores, Beaujolais passou a ser visto apenas como o vinho simples e festivo do mês de novembro. Com isso, outros vinhos da região, muitas vezes mais complexos e interessantes, acabaram ficando em segundo plano.
A classificação mais básica da região é simplesmente Beaujolais. São vinhos leves, frutados e fáceis de beber. Um degrau acima encontramos o Beaujolais-Villages, produzido em áreas consideradas mais favoráveis. Seus vinhos costumam apresentar maior concentração, mais estrutura e melhor capacidade de evolução. Além disso, são relativamente fáceis de encontrar no mercado e geralmente oferecem excelente relação entre qualidade e preço.

No topo da pirâmide estão os famosos Crus de Beaujolais. Diferentemente do que acontece em outras regiões, a palavra “Cru” raramente aparece no rótulo. Em seu lugar, encontramos diretamente o nome da comuna de origem. São dez ao todo: Brouilly, Chénas, Chiroubles, Côte de Brouilly, Fleurie, Juliénas, Morgon, Moulin-à-Vent, Régnié e Saint-Amour.
Entre eles, Morgon e Moulin-à-Vent são frequentemente considerados os mais estruturados e longevos. Em boas safras, podem envelhecer por cinco, dez anos ou até mais, desenvolvendo uma complexidade que surpreende quem associa a uva Gamay apenas a vinhos simples e imediatos.
Talvez o maior legado do Beaujolais Nouveau tenha sido chamar a atenção do mundo para uma região que, por muito tempo, viveu à sombra da vizinha Borgonha. Hoje, porém, vale a pena olhar além do fenômeno de novembro e descobrir toda a diversidade que Beaujolais tem a oferecer.
Seja através da alegria despretensiosa de um Beaujolais Nouveau, da excelente relação qualidade-preço de um Beaujolais-Villages ou da profundidade dos grandes Crus, Beaujolais continua sendo uma das regiões mais cativantes e acessíveis do mundo do vinho.

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